Entrevista com ENZO LOPES
- Victor Mantovani

- há 1 dia
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Há pilotos que aceleram para vencer e há pilotos que aceleram porque, se não o fizerem, existe o risco de se perder a coerência interna. Enzo Lopes pertence aos dois grupos. No motocross, esporte que já nasce absurdo por definição, ele funciona como aquela nota improvável numa sinfonia que, contra toda expectativa, faz tudo passar a fazer sentido.
Na entrevista que precede este texto/crônica, Enzo conta que abriu mão de muita coisa para chegar onde está. Adolescência, rotina, a confortável ilusão de normalidade. Gaúcho de origem e estrangeiro por circunstância, passou seus anos formativos nos Estados Unidos, esse lugar onde tudo é grande, rápido e permanentemente provisório. Talvez Vilém Flusser, filósofo pouco convidado para mesas de bar e ainda menos para o motocross, explicasse melhor. Flusser dizia que o verdadeiro gesto humano é aquele que cria sentido mesmo quando o caminho não está dado. Enzo nunca permitiu que a mentalidade do sacrifício o desviasse do rumo, mesmo quando o rumo ainda não tinha se apresentado com clareza; seguiu por uma espécie de fidelidade interna.
Voltar ao Brasil, Enzo diz, tem um sabor especial. E tenho que concordar. Há algo profundamente filosófico em sair cedo demais e retornar quando já não se é promessa, mas sim ídolo concretizado. O menino que saiu e virou piloto, o piloto que voltou virou referência. Confesso que, como admirador do motocross bem praticado, sempre preferi manter certa distância dos meus ídolos. Não por frieza, mas por respeito. Uma forma de não desmitificá-los, de deixá-los num panteão. Já tive experiências pouco animadoras ao conhecer alguns; percebi que o ídolo e a pessoa raramente coincidem. O primeiro vive bem na distância; o segundo chega com complexidades demais para caber em nossas expectativas. Mas acontece que caminhos às vezes se cruzam, e com Enzo foi o oposto. A admiração não só resistiu ao contato como ganhou ainda mais força. Acreditem, o moleque é ainda melhor de perto: um piloto excelente, uma pessoa melhor ainda. Talvez porque alguns heróis não sejam feitos para parecer deuses, mas para provar que excelência e humanidade podem dividir o mesmo capacete.
Depois de conhecer um pouco da história e do caminho de Enzo Lopes, é hora de ouvir diretamente dele. Confira o papo exclusivo que tive com Enzo, onde ele fala sobre sacrifício, retorno ao Brasil e a vida dentro e fora das pistas.
Victor Mantovani (Roots MX): Enzo, é um prazer enorme te receber. Como fã do esporte, confesso que essa conversa é muito aguardada. Para começar, como você está neste momento e como tem sido estar de volta ao Brasil? E aproveitando: o que diferencia o Enzo Lopes pessoa física do Enzo Lopes atleta profissional?
Enzo Lopes: Não tenho palavras, todos sabem o quanto eu amo minha casa, meu Brasil, meus pais, meus avós, namorada, meus animais (cachorro). Independente de onde eu vá neste mundo, não há lugar como a própria casa. Ainda mais eu, que viajei o mundo inteiro e passei anos e anos fora do Brasil. Então, estar de volta com este desafio novo é muito, muito legal. Não digo somente de carreira, mas também de pessoas. Me faz muito, muito bem. Essas são coisas que talvez pessoas não entendem. Hoje, teclar na internet é muito fácil. Falar: “ah, por que tu não fica lá?”, mas as pessoas não sabem tudo o que eu me dediquei, me abdiquei e sacrifiquei para tentar o sonho americano. Enfim, agora estar de volta é muito legal, com esse novo desafio, essa nova equipe, então é massa, está tudo certo, estou muito feliz e agora é só trabalhar. Cara, o que diferencia Enzo Lopes de pessoa física e piloto profissional é ligar e desligar a chave, o profissionalismo que precisa na carreira, no dia a dia, de ter que acordar, ter que treinar, voltar pra casa e depois brincar com o cachorro (risos), ficar com a namorada. Quando estou na pista, estou 100% focado naquilo, e sei lá, com o passar do tempo isso parece uma coisa tão simples. E o que diferencia é que eu sou um cara extremamente focado, e muitas pessoas acham que eu sou, sei lá, metido, porque as pessoas, na maioria das vezes, me conhecem apenas no dia de corrida, que é o momento em que eu estou 100% lá dentro para o meu trabalho, então posso estar mais fechado, não dando sorriso por aqui, por ali. Mas, para quem me conhece, sabe que sou uma pessoa diferente, mais tranquilo, porque não temos obrigação de ganhar num dia como hoje (terça-feira).

Victor Mantovani (Roots MX): Como é, para você, carregar o status de um dos grandes nomes do motocross mundial? E falando em trajetória, como foi trabalhar ao lado do Chad Reed e receber elogios de alguém como Ricky Carmichael? Houve outros momentos marcantes nesse nível? Qual deles mais te marcou?
Enzo Lopes: Para mim é meio surreal ter passado por tudo isso. Um outro momento marcante para mim foi em 2011, que fui vice-campeão mundial, e a partir dos próximos anos (2012, 2013, 2014), todo ano, entre o Loretta Lynn e o Mundial Júnior, eu ia para a Europa treinar com o Stefan Everts, até ele veio fazer um curso na minha própria pista, teve com a Red Bull o “Enzo e Stefan Ride Camp”, então tinha uma amizade, quer dizer, tenho até hoje, mas não tão próximos como éramos naquela época. Ter vivido com ele, ter ido na oficina da KTM, ter ido na festa de aniversário do Liam Everts (que ainda era uma criança), joguei bola (futebol) com Jorge Prado, Antônio Cairoli, Jeffrey Herlings, ah, muita coisa! Com Chad Reed também, me lembro como se fosse ontem lá na academia da JGR, treinar com ele (Chad Reed) e fazermos treino intervalado no ski, e ele me passava várias dicas. E outro cara que me marcou muito, um dos caras que mais fizeram diferença na minha carreira profissional, foi o Brett Metcalfe, que, quando me mudei para a Califórnia, me deu um espaço imenso no supercross, que até então era uma coisa fora de série para mim, e esse cara é uma das melhores pessoas que já conheci na minha vida. Infelizmente, depois, ele teve que voltar para a Austrália, mas até hoje temos contato. Então, cara, fora os comentários do Carmichael, conheci o Dungey... são coisas que, se tivesse que parar por aqui, já estaria bom por conta dessas coisas (vivências).

Victor Mantovani (Roots MX): Você começou muito cedo no esporte (se não me engano, com apenas 4 anos). Antes de se tornar piloto profissional, chegou a cogitar seguir outro caminho? Existia algum sonho ou profissão fora do motocross quando você era criança?
Enzo Lopes: Eu brinco, mas meu pai não me deu muita escolha, nasci em cima de uma moto praticamente (risos). Eu comecei a andar de bicicleta aos 2 anos, com 3 já comecei a andar de moto, e aí, com 4, acredito que comecei a correr os campeonatos. E aí, bom, comecei a vencer brasileiro, de 50cc, 60cc, 80cc, Arena Cross. Mas sempre gostei de jogar futebol! Fazia escolinha duas vezes por semana, e acho que, na época, era uma válvula de escape, pois meu pai sempre foi muito duro comigo (e graças a ele sou quem eu sou), mas o futebol era minha diversão e gostava muito de jogar futebol.

Victor Mantovani (Roots MX): Com uma carreira tão extensa, existe algum campeonato, pista, título ou equipe que ainda represente um objetivo para você? O que você sente que ainda falta no seu currículo?
Enzo Lopes: Tem muita coisa que eu gostaria de ter conquistado que não conquistei. Minha trajetória foi um pouco diferente. Acho que, se comparar lá em 2011, por exemplo, o Jorge Prado, tudo o que ele conquistou, e no mundial fiquei logo atrás dele e venci Hunter Lawrence, ganhei também de outros grandes nomes, como Tom Vialle... só que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa, acaba que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Cada um tem seu próprio caminho. Tive coisas incríveis na minha vida, de onde iniciei (Brasil), num país de terceiro mundo, ter alcançado o que alcancei, mas gostaria de ter conquistado mais coisas. Por exemplo, aquele pódio em Daytona, em 2022, que minha moto deu problema, na Star Racing Yamaha tive problema no braço. Sempre senti que, nos Estados Unidos, às vezes as coisas não fluíam como eu imaginava, coisas aconteciam às vezes como não devia ser, mas a vida tem dessas. Já conquistei muitas coisas e sou eternamente grato. Mas tem casos, por exemplo, o Forkner que se machucou, o Cianciarulo, então tem coisas assim. Conquistei coisas inimagináveis para mim quando criança. Alinhar no AMA (American Motocycle Association) já era um sonho. Claro, gostaria de ter conquistado títulos, pódios, quando tu chega tão perto, tu almeja. Mas agora o foco está aqui, ser campeão do Arena Cross, que perdi ano passado, tem o brasileiro... o céu é o limite no momento.

Victor Mantovani (Roots MX): Seu pai, Léo Lopes, é uma figura extremamente respeitada e querida no motocross, e ainda segue competindo em provas regionais e até no Brasileiro, no MX1 GP Brasil. Vocês ainda dividem a pista em alguns treinos, mesmo que de forma mais descontraída? E como é, para você, vê-lo competir?
Enzo Lopes: Cara, confesso que não é fácil ver meu pai competir. Eu devo tudo o que eu sou aos meus pais. Meu pai, minha mãe, minha irmã, minha família toda. Meu pai, até hoje, treina quase mais do que eu de moto (risos), treinamos sempre juntos, tento ajudar ele como posso, agora os papéis viraram, né? Agora eu que tento ajudar ele, não o contrário. Ele é uma peça super importante da minha carreira, da minha vida, e esse ano estaremos juntos não somente nos treinos, mas nas corridas do brasileiro.
Victor Mantovani (Roots MX): Sendo hoje o principal nome do motocross nacional — e talvez o maior da história — como você lida com a exposição, os fãs e também com os haters que se escondem atrás de uma tela?
Enzo Lopes: Esse é um tópico muito bom! Eu sou uma pessoa bem fechada, não posto muito (nas redes sociais), os fãs reclamam, e, como disse acima, as pessoas que me conhecem no dia de corrida não têm noção de como sou diferente no dia a dia. Quando estamos ali no dia de corrida, a gente está totalmente focado, ali na nossa profissão, na nossa carreira, na corrida. Muitos me entendem como “metido”, mas eu sou envergonhado, muito envergonhado, quem me conhece sabe, mas faz parte. Lidar com a exposição é isso, conforme os resultados vêm, a fama aparece. Não sou nenhuma Virgínia (influenciadora digital) e nenhum Cristiano Ronaldo (astro do futebol), por enquanto está bom (risos). Os haters, ah, como se diz em inglês, “haters gonna hate”. Costumo brincar que, se quer falar qualquer coisa de mim, alinha no gate numa pista comigo por duas voltas, se ganhar de mim, pode falar alguma coisa (risos). Mas só faço meu trabalho, vivo minha vida, não posso deixar essas coisas me afetarem.

Victor Mantovani (Roots MX): O que faz parte da sua rotina para manter o foco e a alta performance, tanto no aspecto físico quanto no psicológico? Você conta com uma equipe de profissionais voltada para esse cuidado?
Enzo Lopes: Cara, já passei por muitos nutricionistas, psicólogos, treinadores, mas no momento agora não. Na Star (Racing Yamaha) já treinei com o Swanie (Gareth Swanepoel), Alex Martin (ex-piloto e treinador), tive vários treinadores profissionais. Hoje, acho que sei o que funciona e o que não funciona. No nosso esporte não tem mágica, o trabalho tem que ser feito, as baterias têm que ser feitas em dia de treino. A alimentação também não tem muito segredo, entendo como funciona meu corpo. Ao longo desses anos e essas vivências aprendi muita, muita coisa. Tipos diferentes de treino, o que comer. Sou um cara extremamente motivado, não preciso de uma pessoa 24h junto a mim para me obrigar a treinar, o que preciso mesmo é de uma pessoa para falar pra eu parar de treinar, que treino até demais (risos).
Victor Mantovani (Roots MX): Ao longo da sua carreira, existiram rivalidades mais intensas com outros pilotos, seja dentro ou fora das pistas? Como você encarou ou encara essas situações? Poderia dizer algum nome de piloto que é ou já foi um grande rival?
Enzo Lopes: Um dos meus maiores rivais enquanto crescíamos foi Kioman Navarro na cinquentinha, altas e altas brigas com ele por título. Já cheguei a perder título por um ponto pra ele. Mais tarde passei a correr em outros lugares, no AMA... mas acho que meu maior rival sou eu mesmo, não gosto de estar envolvido em brigas ou coisas do tipo. Ah, teve com o Dean Wilson no ano passado (Arena Cross 2025), mas o cara é meu amigo, rival só dentro das pistas, sempre uma briga muito limpa. Não sou um cara de trash talk, me envolver em drama ou algo assim, vale a rivalidade dentro da pista, e fora, tudo é conversado.
Victor Mantovani (Roots MX): Fora do motocross, o que você gosta de fazer? Pratica outros esportes, gosta de ler, ouvir música ou tocar algum instrumento? Tem um time de futebol pelo qual torce?
Enzo Lopes: Cara, como eu disse, gosto muito de treinar, gosto muito de pedalar, correr a pé, e logo, logo vou incluir a natação também. Depois que parar de andar de moto, meu sonho é fazer um Ironman (prova de triathlon de longa distância consistindo em 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,2 km de corrida), começar com 70.3 e depois fazer um full, é bom pra mim, que gosto de treinar e me ajuda na preparação. A parte física, para mim, é simples, às vezes até acho que tenho que me cuidar porque entro em overtraining. Mas, cara, gosto de ouvir música, gosto de rock antigo, punk rock, Machine Gun Kelly (rapper norte-americano), Eminem (rapper norte-americano), essas coisas assim. E futebol parei de assistir, torcer, há um tempo já. Também gosto de ler, David Goggins (palestrante motivacional americano, autor e SEAL aposentado da Marinha dos Estados Unidos).
Victor Mantovani (Roots MX): Olhando para trás, o quanto você precisou renunciar em termos pessoais para chegar onde chegou?
Enzo Lopes: Eu diria que sacrifiquei uma vida. Eu tive que sair da escola, abrir mão de meus amigos, ir para os Estados Unidos, na verdade, desde pequeno eu ia e voltava para os Estados Unidos, perdia muitas aulas, e em 2016 me mudei. Mas, cara, é renunciar uma vida inteira em prol de um objetivo só, então me sacrifiquei de muita coisa. Em parte de uma adolescência, só tive o esporte. Graças a Deus cheguei onde cheguei, mas teve momentos muito difíceis antes de ver a luz no fim do túnel, então me abdiquei de muita coisa na minha vida, mas agora tudo fica com um sabor especial, a gente dá muito valor.
Victor Mantovani (Roots MX): Você enxerga hoje pilotos da base com potencial para atingir um nível semelhante ao seu? Existe algum nome que você acredita e acompanha mais de perto?
Enzo Lopes: Essa pergunta é muito importante! Por um tempo foi difícil de ver alguém crescendo, e agora a gente tem o Bê (Tibúrcio). Ele é um cara extremamente qualificado e meu sonho é ter alguém que chegue onde cheguei e faça muito mais, acho que não adianta eu chegar onde cheguei e não poder compartilhar essas coisas. As pessoas aprenderam com isso, que sim, é possível alguém aqui do Brasil chegar, seja ele no Mundial ou no AMA. Espero do fundo do coração que dê tudo certo para o Bê, espero que ele almeje muito alto, porque ele tem potencial para isso. Sobre as categorias de base, não acompanho muito. Muitos meninos são bons, mas às vezes sobem e perdem esse foco, assim como tem outros meninos que são ao contrário, que são mais ou menos na base e vão para a MX2 e ficam muito bons. Mas tem sim vários meninos bons, tipo Lorenzzo (Ricken), tem o João Vitor, que mora nos Estados Unidos. Espero que eles caminhem por onde caminhei e o céu é o limite para eles.
Victor Mantovani (Roots MX): Para fechar, o que o público pode esperar de Enzo Lopes em 2026?
Enzo Lopes: Toda vez que eu entrar na pista será de coração e alma, tanto no brasileiro quanto no Arena Cross. Às vezes algumas pessoas não acreditam que eu tenho potencial no motocross, como Jeremy (Horebeek), assim como Glenn (Coldenhoff) também, então quero bater de frente com esses caras... tem o Fábio e o Aranda também. No Arena não sei quem vão trazer, mas, independente, quero buscar aquele título que ficou para trás no ano passado. Mas é isso, cara, o resto é ser feliz e o resto é consequência.

BATE BOLA
Ídolo internacional: Chad Reed
Ídolo nacional: Ayrton Senna
Comida preferida: Carreteiro
Filme / série: Breaking Bad
Estilo musical: Punk Rock
Deveria ter MAIS no Motocross: Pilotos
Deveria ter MENOS no Motocross: Ego
Hobbies: Correr a pé
Sonho realizado: Ter me tornado o Enzo Lopes
Sonho não realizado: Completar um Ironman
















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